Eu gosto de ler e na prática, isso resume-se a períodos de leitura assídua seguidos por longos período de seca extrema. O que geralmente acontece é que me apaixono perdidamente por determinada história ou tema ou autor e exploro-o até à (minha) exaustão durante meia dúzia de livros semelhantes. Agora são os romances ingleses dos séculos XVIII e XIX, o que para já se traduziu em Jane Austen e Charlotte Brontë. Da primeira li aquela que é considerada a sua melhor obra, Orgulho e Preconceito e leio actualmente Sensibilidade e Bom Senso. Da segunda li Jane Eyre e é sobre esse que me debruço.
A verdade é que não esperava gostar da Jane Austen (estava até certa de que ia odiar o género) e dei de caras com um dos seus livros quase que por acaso. Comecei a ler, sem grande entusiasmo, e assim foi durante quase metade da história, até que o Mr. Darcy revela os seus verdadeiros sentimentos e eu não consegui mais pousar o livro. Nada do que imaginava, pensei. A protagonista é uma mulher conforme a época ditava, é certo, mas com opiniões e sem medo de as expressar e o personagem masculino não é nenhum protótipo de príncipe encantado. É sim um ser anti-social, rude, orgulhoso - yuck. E eles desprezam-se durante tanto tempo, só para depois percebemos que afinal ele sempre a amou e ela, quando finalmente deixa de lado todos os preconceitos que desenvolveu, erradamente, contra ele, retribui esse sentimento. Acho que o mais gosto aqui, para além da ausência de personalidades perfeitas, é o rumo inesperado que as coisas tomam.
Foi com isto em mente que me dediquei ao Jane Eyre, convencida (não sei bem porquê) de que seria mais do mesmo. Mas não, oh não... A Elizabeth da Jane Austen tem opiniões? Pois bem, a Jane da Charlotte Brontë tem uma consciência e moral que quase a levam a morrer à fome e ao frio, uma profissão e independência. Ora, toma lá.
Jane Eyre apaixonou-me como há muito um livro não o fazia. Fez-me deixar de comer e de dormir a horas como só um grande livro é capaz de fazer e este meu amor por esta obra tornou-se tão compulsivo que temo não conseguir encontrar mais nada que se assemelhe, nem que só um bocadinho, ou que consiga concretizar a simples tarefa de me fazer esquecê-lo enquanto me dedico a outra história (tarefa ingrata a do Senso e Sensibilidade). Dou por mim nas horas vagas a vaguear na dura história de vida da Jane, no modo firme com que nunca contraria os seus valores e aquilo em que acredita, mesmo que o desejo e o impulso lhe peçam o contrário (era tão mais fácil esquecer o pequeno pormenor de o Mr. Rochester ser casado com uma louca que vive trancada num quarto e ter com ele uma história de amor intensa) e na forma como supera as adversidades contrariando todas as probabilidades. Como o Mr. Rochester e ela (por obrigação das circunstâncias, é certo) se tornam mais próximos e semelhantes, acabando mesmo o primeiro por se tornar dependente dela para o resto dos seus dias, deixando para trás o homem sempre superior, orgulhoso - que a ama, não há dúvida - mas que ao mesmo tempo lhe dá ordens e pretende torná-la num ser diferente daquele que o seu espírito dita.
Claro que a Jane Austen é uma excelente autora e os seus livros serão para sempre clássicos da literatura, mas os mal entendidos e a questões ligadas à classe social que dramatizam as intrigas das suas obras vão acabar sempre empurrados para um cantinho bem escondido ao ler as irmãs Brontë porque fazê-lo (suspeito que será também assim com o Monte dos Vendavais da Emily) é como levar um murro no estômago, tamanha a brutalidade da vida e a violência dos seus problemas. E um murro bem forte.
- Afirmo-lhe que tenho de ir! - repliquei, sentindo a paixão apoderar-se de mim. - Julga que posso ficar e não significar nada para si? Julga que sou um autómato? Uma máquina sem sentimentos? E que posso suportar arrancarem-me o meu pedaço de pão dos dentes e entornarem-me a minha gota de água vital? Julga, lá porque sou pobre, obscura, vulgar e insignificante que não possuo alma nem coração? Tenho uma alma tão grande como a sua... e um coração tão ardente como o seu! E, se Deus me tivesse dotado com alguma beleza e uma grande fortuna, tornar-lhe-ia tão difícil deixar-me como me é agora difícil deixá-lo a si. Não lhe falo neste momento como é hábito ou convencional, ou mesmo através do meu corpo. É o meu espírito que se dirige ao seu, exactamente como se tivéssemos já passado pelo túmulo e estivéssemos aos pés de Deus, iguais... Tal como somos!